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Inclusão no Trabalho e Mobilidade


Falar em inclusão da pessoa com deficiência (Pcd) no mercado de trabalho sugere uma amplitude de reivindicações e debates sobre o assunto. Efetivar a equidade de oportunidades e estabelecer o acesso dentro da empresa é considerar um leque de fatores integrados para a qualidade da inclusão. Não podemos pensar somente na contratação, acesso e mobilidade dentro da empresa, é preciso ir além dos muros do local de trabalho, considerando as dificuldades do empregado em manter uma rotina saudável e acessível.

Estou querendo dizer que a mobilidade urbana é um aspecto fundamental para a inclusão da Pcd no mercado de trabalho. De forma especial estou falando das pessoas com mobilidade física reduzida, que são os cadeirantes ou pessoas com dificuldades na locomoção, obesos e idosos. Uma pessoa com mobilidade reduzida não pode acessar os recursos disponíveis da inclusão. Pois a inclusão exclui quem tem dificuldade. É uma forma de assassinar a inclusão em nome da facilidade de adaptação que alguns gestores e executivos realizam e que chamam de “inclusão”.
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Quero destacar alguns pontos importantes que venho observando e vivenciando ao longo de minha busca diária por trabalho e renda. São muitas as dificuldades que encontro quando saio na rua e me locomovo entre pessoas e automóveis. Primeiro sinto um risco muito grande em me locomover pelas ruas e pegar os ônibus ou os coletivos, pois, as ruas não apresentam calçadas e rampas de acesso, coagindo e me obrigando a “andar” pelo asfalto junto com os automóveis.

Ou seja, um trânsito feito para carros andarem, e não pedestres e cadeirantes. Portanto vivemos em nosso município uma exclusão no trânsito que prejudica a vida das pessoas. Falta faixa de pedestres, carência de redutores de velocidade, sinalização que indique e conscientize os motoristas de carro em relação à mobilidade de pessoas com deficiência e outras pessoas. Não compreendo como as pessoas podem conviver circulando e se movimentando junto com os automóveis. Isso é perigoso e acho que os acidentes no trânsito matam e ferem mais que outras doenças como a AIDS ou Câncer, esta é minha opinião. O corpo humano é biológico e não deveria competir por espaço na mobilidade urbana junto com tantos motores e engrenagens. Esse choque é fatal. É guilhotina em alta velocidade cortando carne humana.

Outro aspecto é que os ônibus da cidade que estão 100% adaptados ao acesso das Pcd, porém com profissionais despreparados em lidar com a inclusão e manuseamento da tecnologia como as rampas e elevadores dos ônibus na hora de levar uma pessoa com mobilidade reduzida. Já experimentei falta de vontade de funcionários da empresa de ônibus em abaixar a rampa, dizendo que estava quebrada.  Já sofri com a falta de cinto de segurança para prender as cadeiras de rodas e senti o medo de sair rolando com cadeira e tudo, dentro do ônibus. Tenho medo de me machucar quando vou me locomover nestes ônibus municipais. Nos dias de chuva como posso andar nas ruas e pegar um ônibus no ponto se a minha cadeira de rodas é elétrica? Se molhar, ela irá parar e estragar. Como vou esperar um ônibus em pontos que não tem proteção contra chuva e sol, me expondo ao perigo e a humilhação. Essa realidade atinge muitas pessoas com deficiência no dia a dia. Outro dia aqui perto de casa, no ginásio poliesportivo do João Aranha, numa travessia de rua, um cadeirante foi atropelado por um caminhão, pois o local não tem redutores de velocidade para fiscalizar os automóveis e nem estrutura de mobilidade. E o que as autoridades fizeram para evitar e mudar as coisas? Nada, estão esperando mais vitimas?

Outro problema que me preocupa é a falta de acesso para cadeira de rodas em ônibus particulares de empresas que se dizem estar adaptadas para levar a cadeira de rodas, mas não estão. Elas possuem o selo internacional do acesso, mas não possuem acesso. O símbolo esta no ônibus, mas o ônibus não leva uma cadeira de rodas em conformidade com as normas técnicas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) para cadeira de rodas. Uma negligencia que prejudica um cadeirante de ir trabalhar.

Recebi no mês passado uma oportunidade de trabalho em uma faculdade aqui da cidade, protocolei na Setransp um pedido de transporte “Porta a Porta” para chegar ate o trabalho e voltar para casa, um serviço que já esta dando certo em algumas cidades da região, e que me pegaria em casa e me levaria ate a porta da empresa e depois me traria de volta para a casa. Uma forma segura e viável em locomoção de pessoas na cadeira de rodas ou mobilidade reduzida. Mas para minha surpresa a Secretaria de Transportes deste município justificou que não poderia me levar ate o meu trabalho, pois o sistema viário adaptado disponível atende somente estudantes com deficiência e que eles só podem levar a Pcd para a escola. Portanto a inclusão só é permitida até a educação, depois disso, é por conta da pessoa ou da empresa. A empresa que iria me contratar não dispunha de um transporte adaptado e a Setransp também não, gerando uma transferência de responsabilidade para mim.  Me obrigando a superar a situação de déficit na mobilidade urbana e me expondo ao risco de ter que andar de ônibus e nas ruas todos os dias.

Eu tenho uma patologia real que fielmente reduz a mobilidade física do corpo todo, como eu poderia superar tal situação neste cenário cruel que é o nosso trânsito e a nossa mobilidade urbana? As barreiras estão também nessa mania em acreditar que deficiente só vai estudar e nunca trabalhar. Outro argumento que escutei foi que, se eles fizessem o meu transporte ate o trabalho, teriam que fazer para as outras Pcd que iriam ver e também iriam querer o transporte. Um absurdo, pois deveriam atender a todos e não só a mim. Solicitei algo que beneficia toda a classe de Pcd e não apenas um serviço exclusivo para minha pessoa. É uma perda de tempo incluir em apenas um segmento social e desconsiderar os outros segmentos sociais da inclusão, como exemplo o mercado de trabalho. Resumindo esta situação, eu perdi a oportunidade de emprego e não pude ir e voltar do trabalho, pois, o Secretário de Transporte deste município não se moveu e nem se preocupou em buscar uma solução para mim neste caso de déficit de transporte. Me sinto impotente e prejudicado com esta situação.

Quero solicitar dos poderes legislativo, executivo e judiciário deste município que pensem melhor na qualidade de nossa mobilidade urbana e na qualidade de vida das pessoas com deficiência. Que se sensibilizem com a realidade excludente que vivemos, pois, o discurso da inclusão se tornou uma demagogia utópica que não se realiza na prática diária das pessoas.

Incluir é pensar no acesso das pessoas em todos os segmentos sociais como no esporte, lazer, cultura, saúde, trabalho, educação e moradia. Levar e buscar as Pcd,  são deveres do Estado. Incluir e ofertar acesso à pessoa com deficiência é pensar numa harmonia dos fatores de mobilidade e considerar uma dimensão total. Considerar o caminho que o cadeirante vai fazer é repensar a Mobilidade Urbana.
Quero chegar, mas como?



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Autor Daniel Pegoraro

Sou criativo, polêmico, autodidata por natureza e político por opção. Meus ideais de uma sociedade justa e igualitária estão no sangue. Sejam bem vindos a minha vida e ao mundo da informação dos bloggers.